Agora que passou a tormenta, prometo (a mim mesmo, claro, quem lê esse moquifo?) voltar aos poucos. Vi dois filmes em DVD recentemente que me agradaram de diferentes maneiras. O primeiro foi Ninho vazio, de Daniel Burman, que já conhecia de Abraço partido e Direito em família. Gosto bastante de seu estilo, de sua aposta num drama centrado no olhar do seu protagonista masculino e no seu dilema em entender o que é ser adulto e ser pessoa. Suspeito que Daniel Burman é a síntese quase perfeita do complexo que os brasileiros tem com o cinema argentino (mais que Martel ou Trapero, que são 'artísticos' demais). Seus filmes são médios, tratam de dilemas realistas e universais, tem pretensão artística, domínio dramatúrgico (que me lembra Tchechov) e grande apelo ao público. Caem direitinho no bom gosto da classe média brasileira, que não entende muito bem - ou não quer entender - as heranças de nosso cinema moderno.
O outro foi Gran Torino, que me arrependo da estupidez de não tê-lo visto no cinema. É um filme bastante simples, seco, direto e desajeitado. As atuações na sua maioria são estranhas e fora de tom, mas nada disso destrói a integridade desse ótimo filme. É como se Clint Eastwood precisasse de muito pouco para colocar só o essencial ali, a trajetória de um homem velho e marcado que consegue passar a diante seu modo de ver o mundo através do garoto Thao, podendo portanto descansar sua alma sombria em paz. O melhor de tudo é que o filme é também hilário, vide todas as cenas na barbearia e apelidos como 'rolinho primavera', 'yum yum', 'torto' e 'mulher dragão'.