quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Tchau

Aos teimosos que insistem em visitar esse site, agradeço a desfaçatez, mas vou parar de escrever por definitivo.

Cheguei a conclusão de que não consigo escrever na frequência e com a qualidade que se espera de um espaço como esse. Além disso, existem centenas de blogs que escrevem sobre cultura, política ou fazem ficção e que falam exatamente a mesma coisa e da mesma maneira. Eu só seria mais um desses, o que não me dá qualquer ânimo para continuar.

Pretendo me dedicar a leitura. Sinto uma enorme falta de conhecimento teórico e experiência artística. Isso me dá desconforto em escrever sobre qualquer assunto no momento. Por isso, paro de vez.

Agradeço os que de alguma forma participaram desse espaço. Até outras.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Voltando a alguma coisa

Agora que passou a tormenta, prometo (a mim mesmo, claro, quem lê esse moquifo?) voltar aos poucos. Vi dois filmes em DVD recentemente que me agradaram de diferentes maneiras. O primeiro foi Ninho vazio, de Daniel Burman, que já conhecia de Abraço partido e Direito em família. Gosto bastante de seu estilo, de sua aposta num drama centrado no olhar do seu protagonista masculino e no seu dilema em entender o que é ser adulto e ser pessoa. Suspeito que Daniel Burman é a síntese quase perfeita do complexo que os brasileiros tem com o cinema argentino (mais que Martel ou Trapero, que são 'artísticos' demais). Seus filmes são médios, tratam de dilemas realistas e universais, tem pretensão artística, domínio dramatúrgico (que me lembra Tchechov) e grande apelo ao público. Caem direitinho no bom gosto da classe média brasileira, que não entende muito bem - ou não quer entender - as heranças de nosso cinema moderno.

O outro foi Gran Torino, que me arrependo da estupidez de não tê-lo visto no cinema. É um filme bastante simples, seco, direto e desajeitado. As atuações na sua maioria são estranhas e fora de tom, mas nada disso destrói a integridade desse ótimo filme. É como se Clint Eastwood precisasse de muito pouco para colocar só o essencial ali, a trajetória de um homem velho e marcado que consegue passar a diante seu modo de ver o mundo através do garoto Thao, podendo portanto descansar sua alma sombria em paz. O melhor de tudo é que o filme é também hilário, vide todas as cenas na barbearia e apelidos como 'rolinho primavera', 'yum yum', 'torto' e 'mulher dragão'.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Outro não

"embora soubesse que só o fato de escrever me ligaria como um fio de Ariadne a meus semelhantes, não poderia, no entanto, fazer com que nenhum de meus amigos me lessem, pois os livros que fui imaginando ao longo de meus dias de silêncio literário são bolhas de sabão de verdade e não se dirigem a ninguém, sequer ao mais íntimo de meus amigos, de modo que o mais sensato que podia fazer foi o que fiz: não escrevê-los."

sábado, 20 de junho de 2009

Não

"Desde que comecei estas notas sem texto ouço como ruído de fundo algo que escreveu Jaime Gil de Biedma sobre o não escrever. Sem dúvida, suas palavras trazem maior complexidade ao labiríntico tema do Não: "Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muita mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler. Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu - sem que eu soubesse - em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada, e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi um equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. E em parte, na pior parte, eu consegui isso; como qualquer poema medianamente bem-feito, agora careço de liberdade interior, sou todo necessidade e sumissão interna a essa atormentado tirano, a esse Big Brother insone, onisciente e ubíquo: Eu. Metade Caliban, metade Narciso, temo-o sobretudo quando o escuto perguntar-me junto a uma sacada aberta: 'Que faz um rapaz de 1950 como você em um ano indiferente como este?' All the rest is silence".

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Blog em recesso

Motivos:
- Elaboração de TCC medíocre;
- Inter em chamas.

Att.,
A direção

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Diário de uma cobaia

Estava sentado no bar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina ao lado de uma xepa de cigarro e um copo de plástico amassado. Tinha fone no ouvido para escapar de um barulho de canteiro de obras e um livro sobre mito e razão nas mãos. Dentro dessa bolha eu era um filósofo e estava acima de tudo. Tocava as idéias como se toca um orgão.

Aparece uma garota no meu campo de visão. Sorri e fala algo que obviamente não ouço. Por uma fração de segundo julguei que não fosse comigo. Tiro o fone e - ai de mim! - volto para o mundo. Ela fala que precisa de um voluntário para uma pesquisa e que só falta uma pessoa para fechar o grupo da vez. Pisco os olhos e... digo sim.

Subo com ela até um laboratório de psicologia. Pergunto do que se trata, ela fala que é uma pesquisa sobre psicologia visual. Peço mais detalhes e ela menciona de maneira reticente que faz parte de um laboratório de psicologia social.

Entro na sala e há um grupo a minha espera. Do outro lado vejo uma porta que dá para a sala do teste. Todos entram e se sentam numa extremidade da sala. Na outra parede, uma tela com projeção digital. Um bolsista explica que a sala está sendo filmada e o som captado. Ninguém se opõe. Ele explica como se dará o teste.

Começam as projeções. Fico aliviado. Vejo uma seqüência daquelas imagens ambíguas, que podem ser por exemplo tanto uma moça como uma velha. Cada participante diz o que via primeiro na imagem, e, vale dizer, alguns são meio tapados. Em seguida, algo mais abstrato. Algumas linhas dispostas paralelamente. Tínhamos que dizer quais eram do mesmo tamanho. Tive insegurança em algumas delas, segui o que a maioria falou. Na última fui teimoso e segui minha intuição.

Termina o teste e o bolsista fala que irá fazer uma entrevista a sós com cada um. Me escolheu como o primeiro. Assim que todos saem da sala ele me diz: você foi o único a ser testado aqui, isso foi uma pesquisa de psicologia social sobre influência do grupo sobre o indivíduo.

Nesse momento senti uma brisa. A brisa que surge quando calças são arriadas.

Assino um termo de compromisso e saio deslizando. Ao abrir a porta dou de cara com todos os que estavam comigo no teste e com a garota que me recrutou. Ela tinha o mesmo sorriso. Todos a mesma feição meio tapada. Percebi isso mesmo não tendo tirado os olhos do chão.

Tentei voltar para o meu livro de filosofia, para minha bolha, para minhas alturas. Não deu. Hoje, fui constrangido pela ciência.